Mulheres profissionais: Desafios e conquistas

Parte 3 – Efeitos da pandemia para a mulher profissional

A história da mulher no mercado de trabalho é marcada por uma série de transformações que evoluem conjuntamente com as mudanças do seu papel na sociedade. Papel esse que foi profundamente afetado durante o período pandêmico. Segundo a FGV, entre os anos de 2014 e 2019, a taxa de participação feminina no mercado de trabalho cresceu continuamente e atingiu 54,34% em 2019. Em 2020, com a pandemia, o índice recuou para 49,45% e ficou inferior ao início da série histórica

Lucas Assis, economista, afirma que a desigualdade ocupacional ficou ainda mais evidente porque as áreas que geralmente são ocupadas por mulheres foram as mais afetadas na pandemia.

“Entre esses empregos estão serviços domésticos, comércio e serviços, por exemplo. Já atividades que majoritariamente são ocupadas por homens, como a construção civil, foram muito mais resilientes durante 2020. A lógica está dada: os setores que mais sofreram na pandemia são os que menos contratam. E, se esses setores contam com mais mulheres em suas estruturas, essa população é mais afetada”.

Segundo dados do Ipea, em alojamento e alimentação, categoria em que 58,3% dos profissionais são mulheres, a queda foi de 51%. Nos serviços domésticos, em que 85,7% dos profissionais ocupados são mulheres, a queda foi de 46,2%. Em educação, saúde e serviços sociais, em que 76,4% dos profissionais da área são mulheres, a queda foi de 33,4%.

Outro fator que gerou mudanças significativas durante a pandemia foi o fato de as crianças estarem em casa durante todo o dia. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) mostrou que 7 milhões de mulheres deixaram o mercado de trabalho na segunda quinzena de março, logo no começo da pandemia, contraposto aos 5 milhões de homens no mesmo período. Já entre as mulheres com filhos de até dez anos, a parcela que estava trabalhando caiu 7,8 pontos percentuais, de 58,2% para 50,4%, do terceiro trimestre de 2019 para o terceiro trimestre de 2020. Entre os homens com crianças de até dez anos em casa, a queda foi de 4,2 pontos percentuais no mesmo período.

“A divisão desigual no cuidado das crianças impactou a taxa de participação de diversas maneiras. Muitas mulheres se demitiram para conseguir cuidar dos filhos. Outras ficaram sem tempo para conseguir focar na busca por um emprego, dada a responsabilidade extra em casa. Ainda, uma parte optou por não procurar emprego porque se dedicou aos cuidados domésticos”.

Marcos Hecksher, pesquisador do Ipea.

Quando a mulher contabiliza seu salário com o valor de babá, creche e/ou escola, acaba tomando a decisão de largar tudo e ser a cuidadora principal da criança. Mas é importante ponderarmos a evolução da carreira a longo prazo, onde ela pode ser promovida, mudar de empresa, e ter um rendimento maior.

A situação também foi complicada para as que mantiveram um emprego. Segundo pesquisa do Datafolha, de agosto de 2020, 57% das mulheres que estavam trabalhando remotamente disseram acumular a maior parte dos cuidados domésticos. Entre homens, o percentual foi de 21%. Ainda segundo a pesquisa, metade das mulheres se responsabilizou pelo cuidado de outra pessoa ou ofereceu algum tipo de apoio, seja um familiar (80,6%), um amigo (24%) ou um vizinho (11%).

Para complicar ainda mais o cenário, os especialistas entendem que as mulheres ainda devem demorar mais para conseguir retomar suas posições no mercado de trabalho. Para Assis, o mercado não vai conseguir absorver todas as mulheres que saíram da força de trabalho durante a pandemia. “Há uma expectativa de melhora gradual no cenário, mas ainda passaremos por um período complicado por causa da falta de vagas”, diz Assis. Para Raquel Azevedo, sócia e líder de Diversidade & Inclusão da consultoria Falconi, todas as dificuldades que o Brasil já tinha para alcançar a igualdade de gênero no mercado de trabalho foram aprofundadas pela pandemia.

“A desigualdade já era realidade. A mulher era mãe, dona de casa, profissional e tinha que dar conta de todas as atividades. Mas, com a pandemia, a situação de muitas mulheres ficou inconciliável. Como manter a produtividade no trabalho, ou mesmo manter o emprego, em meio ao isolamento social com as crianças integralmente em casa, sem a ajuda do parceiro? Historicamente, se alguém precisa renunciar a um trabalho para se dedicar à casa, será a mulher e não o homem. Então, muitas deixaram o trabalho por não conseguir administrar tudo em meio à pandemia.”.

Raquel Azevedo, sócia e líder de Diversidade & Inclusão da consultoria Falconi

Porém, esse percurso feminino na conquista de seu espaço não é construído apenas com desafios e dificuldades. Temos muitas potencialidades femininas que quando bem aproveitadas, podem trazer muitas vantagens para a empresa que a contrata. Veremos todas essas potencialidades no próximo artigo. Até breve…

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