Mulheres profissionais: Desafios e conquistas

Parte 2 – Dificuldades e preconceitos sofridos pela mulher no mercado de trabalho

Para se atingir o bem-estar em uma sociedade é necessário considerar o desenvolvimento econômico do país, que consequentemente precisa considerar a capacidade produtiva da sociedade, que envolve, entre outras coisas, a oferta de mão de obra. Ou seja, o desenvolvimento e o bem-estar, dependem de pessoas trabalhando e recebendo por isso. Contudo, o mercado de trabalho brasileiro possui características que dificultam.

Quando o papel social e cultural imposto às mulheres é o de principal responsável pelos cuidados familiares e pelos trabalhos domésticos, nós começamos a enfrentar uma diversidade de problemas.

Embora as mulheres possuam maior grau de escolarização, ainda recebem salários inferiores aos homens. Cada vez é mais crescente a participação da mulher no mercado de trabalho e a sua importância na economia. Vem aumentando também a responsabilidade feminina no sustento da família. Entretanto, as funções exercidas, os cargos e as remunerações dessas mesmas mulheres ainda se encontram em defasagem considerável quando comparados com os dos homens.

Segundo o relatório Global Gender Gap Report (Relatório Global sobre a Lacuna de Gênero) de 2020, do Fórum Econômico Mundial, o Brasil alcança a 130ª posição em relação à igualdade salarial entre homens e mulheres que exercem funções semelhantes, em um ranking com 153 países. As mulheres brasileiras ainda recebem cerca de 70% do salário que os homens ganham para executar as mesmas tarefas. Além disso, os cargos de chefia ainda são exercidos, na maioria dos setores, por homens. A desigualdade de gênero tem se expressado no salário médio contratual, ou seja, a discriminação se inicia na contratação com diferenças de salários devido ao gênero. Temos que destacar, também, que a maior desigualdade de remuneração entre homens e mulheres está nas contratações de nível superior.

Antes havia a ideia de que não existia necessidade de a mulher ganhar salário equivalente ou superior ao do homem, pois o sustento da casa era do homem e não da mulher, mas com o decorrer dos anos, essa realidade mudou e muitas mulheres passaram a levar o sustento para dentro de suas casas. (SOUZA; SANTOS, 2014). Infelizmente, as empresas não têm acompanhado essa evolução do espaço conquistado pelas mulheres. Vale ressaltar que as mulheres continuam sendo vítimas de abusos e assédios morais e sexuais em seus ambientes de trabalho, afetando diretamente o rendimento profissional e a saúde emocional das profissionais. De acordo com a Agência Patrícia Galvão, cerca de 40% das mulheres já foram ofendidas ou ouviram gritos no trabalho, contra 13% dos homens.

Deve-se ressaltar que as mulheres, com sua persistência para crescer no âmbito de trabalho, através do aumento da escolaridade e aperfeiçoamento em cursos, conquistou as competências necessárias para concorrerem com os homens a vários cargos, inclusive os de liderança.

“[…]a participação da mulher no contexto do trabalho e os reflexos da sua maneira de pensar, agir e sentir sobre os fenômenos evidenciados na complexidade atingem uma dimensão bem maior do que se imagina”

(CUNHA; SPANHOL, 2014)

Quando avaliamos setores, como de tecnologia ou financeiro, vai diminuindo cada vez mais o número de mulheres e ficando cada vez mais difícil ascender nesses ambientes. Diretora financeira da TIM, Camille Loyo Faria é uma das poucas mulheres no Brasil que quebraram esse paradigma. Quando jovem, sentia que sua visão diferente incomodava a maioria masculina das equipes.

“Também cheguei a ouvir que havia alcançado certa posição porque estava tendo um caso com o chefe. Queriam dizer que não tinha competência.”

Regina, do Insper, acrescenta que essa segregação é um problema estrutural. “Essa divisão nas áreas de atuação foi incentivada no passado e ainda hoje coloca as pessoas em caixas. Há muito mais mulheres em salões de beleza, como cabelereiras e manicures; nas áreas de limpeza doméstica e de empresas; no turismo; e em comércios e serviços em geral. Os homens representam muito pouco da força de trabalho nesses segmentos”, diz.

Por conta disso, a intensa entrada das mulheres no mercado de trabalho não significou uma diminuição significativa das desigualdades profissionais entre gêneros. Pois a maior parte dos empregos femininos continua concentrada em alguns setores de atividades, e essa segmentação continua na base das desigualdades existentes (ABRAMO, 2000, p. 78).

As ocupações associadas às mulheres são aquelas que derivam do papel social da “mulher cuidadora”. Essas profissões possuem status social e remunerações inferiores. Na saúde, por exemplo, as auxiliares e técnicas de enfermagem (cargos com menor remuneração) são em sua maioria mulheres. Já os médicos cirurgiões são em sua maior parte homens. A maternidade inclusive é apontada pelas executivas como uma das maiores barreiras para a ascensão. De acordo com Margareth Goldenberg, gestora executiva do Mulher 360, é mais comum que mulheres cheguem à liderança quando não têm filhos. Isso significa que muitas precisam renunciar às ambições pessoais para serem executivas.

Uma pesquisa revelou que 52% das mulheres que têm filhos sofrem preconceito no ambiente profissional, seja em processos seletivos e/ou em locais em que trabalharam. Já entre os homens, apenas 15% deram as mesmas respostas.

“Há uma constante luta por igualdade de gênero no mercado de trabalho, em equiparação salarial e oportunidades de crescimento profissional, e alguns aspectos deixam isso ainda mais evidente e merecem atenção por parte da área de recursos humanos. Essa diferença de tratamento que existe entre mães e pais é muito negativa para o mercado como um todo, pois pode desestimular talentos femininos e impedir o seu crescimento”.

José Ricardo Amaro, Diretor de Recursos Humanos.

Grande parte das mulheres que retornam de licença-maternidade são demitidas até dois anos depois de terem filhos ou não conseguem retornar ao mercado de trabalho após a maternidade. A professora de gestão de pessoas na FGV, Vanessa Cepellos conta que muitas mulheres acabam sendo forçadas a pedir demissão quando têm filhos e, ao tentar retornar ao mercado, percebem que suas habilidades ficaram obsoletas. Para aquelas que conseguem permanecer no trabalho, é comum que passem a ser mal vistas pelos superiores por terem de dividir a atenção com as necessidades da família.

Ligia Pinto, do Grupo Mulheres do Brasil, relata que, em uma consultoria, observou que as mulheres presentes na lista dos dez principais candidatos a se tornar sócios da empresa não tinham filhos. As candidatas com filhos apareciam nas últimas posições. Isso porque a metodologia considerava o faturamento que os profissionais tinham conseguido gerar em 12 meses. Mulheres que haviam tirado licença-maternidade tinham faturamento zero por meses.

“Eles não consideravam o período de afastamento. Quando era desconsiderado o período de licença-maternidade, essas mulheres subiam no ranking e entravam de verdade na disputa pela vaga de sócia. Essa questão da maternidade é estrutural, mas esse exemplo mostra quanto até o padrão de avaliação pode ser machista”.

A questão da dupla jornada feminina está na sobrecarga, muitas vezes, insuportável e na rejeição do mercado de trabalho à mulher com responsabilidades familiares. A mulher que possui filhos, muitas vezes, é preterida em seleções de emprego ou para cargos de chefia. Um dos fatores que conservam esse quadro desigual é que as mulheres continuam sendo as principais responsáveis pelas tarefas domésticas, cuidado com os filhos e demais responsabilidades familiares. A mulher continua acumulando responsabilidades, mesmo quando inserida com sucesso no mercado profissional. Conciliar a vida profissional e pessoal ainda é um desafio muitas vezes impossível para as mulheres trabalhadoras.

“Temos uma construção social de que o homem é responsável pelo provento e a mulher pelo cuidado. Existe a ideia de que mulheres não vão conseguir focar no trabalho corporativo, porque não podem ser, ao mesmo tempo, boas executivas e boas mães. O que não é verdade, se a gente viver em uma sociedade com equilíbrio de gênero em oportunidades empresariais e em cuidados com a casa, os filhos e pais idosos”.

Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora.

Quando falamos sobre desafio profissional, para as mulheres, há grandes desafios devido à dupla jornada, tendo que lidar com o trabalho durante o dia e o cuidado do lar nos momentos de folgas. Um dos grandes desafios da mulher sobre sua profissão é a sua vida pessoal, uma vez que os sentimentos envolvidos acabam influenciando em sua carreira, pois o sentimento de culpa por não dar a atenção necessária aos filhos influencia muito na relação do trabalho e família, o que acaba interferindo em sua dedicação e/ou determinação em alcançar seus objetivos profissionais (SILVEIRA; FLECK, 2019).

É importante que seja alcançado um equilíbrio entre trabalho e a vida privada, buscando preservar a saúde física e mental da mulher, e enxergando a saúde como um direito fundamental. […] As mulheres com filhos sentem-se mais estressadas porque têm que dividir o seu tempo com o filho, sofrendo frequentes interrupções no lazer. Elas se utilizam da estratégia multitarefa, desempenhando várias funções ao mesmo tempo, porém não experimentam plenamente o momento em que estão vivendo. (ROCHA; BURD, 2016, p. 16).

Como será que a pandemia impactou essas mulheres? Esse será o assunto do nosso próximo encontro! Até breve…

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