Ensino remoto: Vilão ou mocinho?

Uma pequena reflexão sobre os impactos da pandemia no sistema de ensino público brasileiro

No início de 2020, todos estávamos trabalhando, estudando, aproveitando as merecidas saídas sociais aos fins de semana com amigos e família… Escutando em plano de fundo notícias a respeito da disseminação de um novo vírus ao redor do mundo, sem imaginar o quanto tudo aquilo afetaria nossas vidas em breve. Hoje, após tantos percalços, adaptações no estilo de vida, preocupações com nossa saúde e das pessoas que amamos, nem conseguimos nos lembrar da sensação despreocupada com que lidávamos com nossa rotina.

Quando se trata de educação, um futuro perfeito seria aquele em que todos conseguem se organizar e aprender de acordo com suas aptidões e seu ritmo próprio. Onde barreiras geográficas ou sociais não tenham interferência, onde todos desfrutem de boa infraestrutura social e tecnológica. Que todos acessem conteúdos de boa credibilidade e possam consultar diretamente tutores particulares quando têm dúvidas. Infelizmente, essa realidade ainda está bem longe de ser alcançada.

Especificamente no aspecto educacional, as interferências do período pandêmico foram enormes e sem precedentes. De repente, nos vimos em condições nunca imaginadas e precisando criar alternativas do dia para a noite. Hoje, é clara a necessidade de refletir sobre o processo de ensino-aprendizagem após o início do ensino remoto e quais serão as possíveis implicações futuras.

Quando falamos sobre a educação básica durante o período pandêmico, precisamos ter em mente que estamos lidando com crianças e adolescentes que estão em processo de desenvolvimento cognitivo relacionado aos mais diversos comportamentos e habilidades necessárias ao pleno exercício de sua cidadania. Um levantamento feito pela Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED) em 2020 mostrou que 67% dos estudantes adolescentes tiveram dificuldade na organização de uma rotina de estudos em casa. Essa dificuldade é esperada pois nessa fase de vida ainda estão desenvolvendo sua autonomia, responsabilidade e organização de tarefas.

talvez a falta de experiência em relação a esse modelo de ensino tenha tido um impacto maior na qualidade do processo de ensino-aprendizagem, do que o próprio uso de novas tecnologias.

Logo após o fechamento das escolas, já surgiram os primeiros desafios a serem enfrentados pela comunidade escolar: como seguiria o restante do ano letivo? Independente de quais as estratégias escolhidas por cada Estado, o que se pode notar em comum foi a falta de auxílio aos educadores sobre como lidar com as novas estratégias e ferramentas educacionais digitais. Segundo pesquisa do Instituto Península (2020), grande parte dos professores (83%) se mostrou com dificuldades e pouco preparo para o ensino remoto. O que nos leva a refletir que talvez a falta de experiência em relação a esse modelo de ensino tenha tido um impacto maior na qualidade do processo de ensino-aprendizagem, do que o próprio uso de novas tecnologias. A necessidade de reaprender a profissão e o pouco ou nenhum amparo, foi um grande desafio. É importante destacarmos aqui que os profissionais da educação não tiveram muito tempo para adaptações, a maioria não possuía formação para o trabalho remoto, alguns não tinham acesso à internet ou não tinham equipamento em casa. Realidade essa que não foi muito diferente à de alguns estudantes.

“estar conectado” pode ser considerado como um serviço essencial.

Enquanto a imensa maioria dos estudantes de escolas particulares rapidamente se adaptaram às modalidades de ensino remoto, com boa conexão de internet, ambientes adequados de estudo em casa e plataformas on-line tecnológicas e com recursos invejáveis, os estudantes das redes públicas de ensino, em sua maioria, tiveram seu retorno postergado pela lentidão e entraves do sistema público e complicações como falta de estrutura física e familiar, falta de equipamentos e conexão à internet. Importante ressaltar que durante o período de ensino remoto o “estar conectado” pode ser considerado como um serviço essencial. Infelizmente nos deparamos com a inviabilidade de requerer o mesmo acesso aos recursos tecnológicos para todos os estudantes, uma vez que sabemos que a realidade de cada família é bem diferente. Essa vulnerabilidade social vivenciada por milhões de brasileiros foi evidenciada quando se tornou necessário utilizar ferramentas tecnológicas para possibilitar a continuidade das aulas. A grande maioria das escolas públicas não estavam preparadas para essa demanda, tampouco os estudantes que vivem em situação de pobreza. As instituições de ensino se viram obrigadas a desenvolver estratégias que abrangesse formas digitais e impressas, contando ainda com o protagonismo do professor, buscando sempre criar e manter o vínculo professor x aluno.

O período de isolamento social escancarou a desigualdade existente no país em relação ao acesso à internet, assim como a desigualdade social, cultural e educacional. A diferenciação dos recursos existentes nas escolas privadas é ainda maior quando falamos em municípios do interior do país, onde a escassez de recursos financeiros e de pessoal é ainda mais severa. É essencial que se encontre alternativas para melhoria da democratização do ensino e do acesso às informações, uma vez que é clara essa desigualdade.

Outro ponto importante de ser considerado foi a necessidade de adequações para que fosse possível uma comunicação eficaz tanto com as famílias quanto com o próprio estudante. Se essa comunicação já era necessária no modelo tradicional de ensino, ela se tornou essencial dentro de um novo modelo tão cheio de mudanças, incertezas e adaptações. O que assusta é a informação da pesquisa do Instituto Península (2020) onde, 51% dos professores entrevistados não manteve tal contato. Esse dado nos leva a imaginar como se desenrolou o acompanhamento desses alunos. Mais uma vez, a conexão para acesso as redes sociais e aplicativos de mensagens se tornou essencial para manter esse contato.

Quando discutimos ainda a respeito de um ensino remoto, existe a preocupação em que o professor seja o mais claro possível na produção dos materiais didáticos, já que o processo à distância já é tão dificultoso. Porém, mesmo com todo o empenho nessa produção, o processo de ensino foi impactado pela evidenciação de falhas já existentes na educação brasileira, como exemplo a precária interpretação de textos por parte dos estudantes. De acordo com dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) 2018, as habilidades de leitura e compreensão de texto dos estudantes brasileiros seguiram estagnadas durante a última década no Brasil. Os dados também mostram que os níveis de proficiência no país estão alarmantemente baixos. Em 2018, 50% dos estudantes estavam abaixo do nível 2, em uma escala que vai de 1 a 6, o que significa que não conseguiam sequer determinar o assunto central de um texto. Somente 2% dos participantes tiveram as melhores avaliações, de 5 a 6. Como será que foi o real aproveitamento desses alunos em um sistema onde o ensino foi quase todo por textos (impressos ou em vias digitais)?

Os resultados de todo esse percurso trazem consequências significativas e que produzem uma lacuna na educação brasileira e mundial. As pesquisas mais recentes demonstram que por melhor que seja o ensino remoto pandêmico, não será equivalente ao ensino presencial, planejado e estruturado por anos. As atividades remotas têm suas limitações e não substituirão a experiência escolar presencial, em particular, quando aplicadas na Educação Básica. Não só pelos estímulos pedagógicos, mas também pela necessidade de socialização do próprio ser humano.

Não é que a socialização simplesmente faça parte de ir para a escola. Ela é um direito de aprendizado das crianças e adolescentes.

Estar na escola e ter que lidar com os colegas e com adultos faz parte do desenvolvimento previsto no currículo, que falam sobre como você percebe o outro, como expressa seus sentimentos e como lida com situações em grupo.

Então essa área não foi desenvolvida, porque faltava justamente a socialização. Quando a criança começa a frequentar a escola, aos poucos seus colegas passam a fazer parte do seu processo de desenvolvimento. A escola representa o pontapé inicial para a independência delas e para a descoberta de outras figuras diferentes dos familiares. Além disso, a socialização da criança permite o conhecimento das próprias emoções. Já a adolescência é um período de transformação, onde os jovens começam a questionar a autoridade dos pais e construir sua própria personalidade. Nessa fase, tem-se um período de busca de novas referências, já que buscam maior independência de seus responsáveis enquanto se integram a diferentes grupos sociais. Na falta da autoridade familiar, outra instituição automaticamente ocupará esse posto… este é um dos papéis da escola. É lá que os adolescentes têm os primeiros encontros sociais, amorosos e afetivos, bem como as primeiras angústias e conflitos.

Apesar de todos os pontos considerados e de sabermos que a situação foi e ainda é longe do ideal, é necessário aprender a tirar melhor proveito desse novo cenário que se apresenta. Em poucos anos, foram desenvolvidas habilidades como criatividade, autogestão, autonomia, comunicação, colaboração, dinamismo e adaptabilidade. Habilidades essas que são fundamentais para a formação do indivíduo. A pandemia também nos ensinou o significado de globalização. O vírus desconhece as fronteiras que vemos nos mapas. Profissionais do futuro (esses alunos de hoje!) precisam ser impactados para entender essa relação e pensar de forma sistêmica.

É preciso preparar os atuais estudantes para viver e trabalhar em um mundo digitalizado

As discussões sobre o futuro do mercado de trabalho ainda são incertas. Muitos acreditam que a máquina irá substituir a mão de obra humana, outros afirmam que teremos apenas uma transformação e evolução das profissões. O que sabemos com certeza é que a desenvoltura ao lidar com as novas tecnologias será habilidade essencial para qualquer posto de trabalho. É preciso preparar os atuais estudantes para viver e trabalhar em um mundo digitalizado, e o ensino remoto nos auxiliou a introduzir esse mundo digital na vivência desses jovens. Além disso, o mercado profissional vem reconsiderando o peso do diploma formal nos processos seletivos, valorizando mais a habilidade que a pessoa é capaz de demonstrar. Quando o mundo todo se tornou uma escola, foi possível ressignificar o espaço da sala de aula.

Durante muito tempo estudamos por meio de replicação de informações mecânicas em sala de aula, sem considerar a individualidade de cada estudante. Esse método é chamado de “tradicional” e perdeu o seu sentido em um mundo em que a informação está ao alcance de um ou dois toques, na palma da mão. A pandemia acelerou o processo de atualização das formas de ensinar, e isso é um grande ganho para a nova geração. Agora temos a possibilidade de mudar para sempre a noção de que o aprendizado deve acontecer entre os muros de uma escola. Estamos todos reaprendendo a conhecer, a nos comunicar, a ensinar e a aprender.

Infelizmente, essa mudança de mentalidade e metodologias acontece gradualmente. Dessa forma, ainda houve uma intensa discussão a respeito da promoção e retenção dos estudantes durante o período de ensino remoto.

Se, por um lado, pode não ser justo reter os alunos com base em um período tão caótico e em um modelo de ensino com tantas lacunas, correndo o risco de aumentar ainda mais a evasão escolar, por outro lado, a aprovação automática pode desestimular a dedicação do estudante e gerar lacunas irreversíveis na aprendizagem.

Ainda que polêmica, a reprovação tem seus ensinamentos. Enquanto o aluno que é retido corre maior risco de perder o interesse pelos estudos, a solução de aprovar todo mundo também é complicada pois cada estudante tem direitos de aprendizagem. Pode não ser viável aprovar uma criança que não aprendeu nada. 

A partir dessa discussão, foi percebido que o maior objetivo dentro de um ensino remoto não planejado e com tantas falhas pode ser a manutenção do vínculo entre estudante e escola. O ser humano aprende melhor quando tem um vínculo de confiança com a comunidade escolar. Saber que possui uma pessoa de confiança na qual pode pedir ajuda para lidar com a frustração, e se sentir seguro o bastante para correr riscos. Uma forma de fortalecer esses vínculos com os alunos é demonstrar interesse por eles. Claro que a maioria dos professores trabalha com turmas lotadas e teve o trabalho triplicado durante esse período, o que torna desafiador manter esse vínculo com todos os alunos. Entretanto, abordagens de ensino mais dialogadas, que permitam uma maior proximidade entre professores e alunos e que tragam abertura para temas relacionados aos seus projetos de vida, favorecem essa interação. 

Diante de tantas modificações no sistema de ensino, a pandemia deixou ainda mais claro as dificuldades encontradas no ensino público brasileiro, sendo importante refletir se estamos ou não preparados para dar continuidade no ensino de maneira remota. Apesar de muito tempo dos jovens ser gasto online, pouco se preocupa em fazer uso dessa ferramenta de forma a auxiliar os estudos. Porém se forem disciplinados, talvez seja possível que o uso de tecnologias sirva de suporte para as aulas presenciais. Pode se perceber que é essencial criar certa familiaridade da população com o uso dessas tecnologias, bastando aproveitar melhor tais recursos no meio educacional.

Estimular a solidariedade, a resiliência e a continuidade do vínculo entre educadores e alunos nesse período é fundamental, pois ajuda a minimizar o impacto psicológico negativo

Outro ponto importante foi o fato de que 75% dos educadores não tiveram nenhum suporte emocional, o que vimos que não é muito diferente da realidade dos estudantes. Não podemos esquecer que saúde física e saúde mental andam juntas. A duração prolongada do isolamento social, a falta de contato com os colegas de classe, o medo de adoecer, a falta de espaço em casa, tornou o estudante menos ativo fisicamente. Além de todos esses dilemas, cresceu a ansiedade e receio em relação às questões futuras. Essa sensação de incerteza e medo em um prazo muito longo pode criar um trauma, aumentando os níveis de estresse e gerando riscos à saúde mental. Estimular a solidariedade, a resiliência e a continuidade do vínculo entre educadores e alunos nesse período é fundamental, pois ajuda a minimizar o impacto psicológico negativo da pandemia nos estudantes.

Estudos feitos pela Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia alertam que o Brasil corre o risco de regredir em torno de duas décadas em relação ao acesso à educação. O fechamento das escolas poderá ter impacto profundo e de longa duração (cerca de 15 anos) sobre a economia brasileira, ou seja, até 2038.  Segundo a secretaria, o impacto será sentido no PIB, no aprendizado, na produtividade e na desigualdade social, já que o acesso ao ensino remoto não foi igualitário.

“Portanto, escolas fechadas hoje causam um país mais pobre amanhã. E esse amanhã deve perdurar por quase duas décadas.”

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